domingo, 28 de outubro de 2012


Condição da Escuta - mídias e territórios sonoros
Giuliano Obici
PREFÁCIO
Sou uma das pessoas menos indicadas para avaliar o teor do presente livro. Considero-me um caso clínico sem cura no âmbito sonoro. Minha irritabilidade com os ruídos em sala de aula, cinema, aeroporto, restaurante, trânsito, em casa, nas viagens, nas ruas é tamanha, que só é comparável à hipersensibilidade de um neurótico de guerra. Ruídos de papel de bala sendo desembrulhados devagarzinho no teatro, celulares invadindo o espaço dito público e obrigando-nos a compartilhar das idiotices familiares, conjugais e comerciais da vida contemporânea, a televisão onipresente em qualquer lugar nos enfiando goela abaixo os programas mais abjetos, os alto-falantes espalhados pelas praças – ou tudo isso é um problema de todos nós, ou na encarnação passada fui uma ostra. “Um pouco de silêncio, senão eu sufoco!”, eu diria, parafraseando Kierkegaard. Não entendo como as pessoas não protestam, como elas não quebram as máquinas, não arrebentam os controles, não conseguem bloquear essa crescente saturação ruidosa. Sei de aparelhos a preços razoáveis, e vendidos pela Internet, que bloqueiam televisores ou celulares, pequenos controles de sabotagem que ainda hei de usar em minhas aulas, onde vejo alunos muito concentrados subitamente saindo em desabalada correria para fora da sala, levados por um toque de celular, na esperança de receberem alguma mensagem muito mais importante do que aquele conceito em vias de ser esclarecido... É a banalidade cotidiana: o futuro eventual (alguma novidade, notícia, convite, contato, chance, tragédia, ou até um engano) invade o presente e ganha inteira prioridade sobre ele. Na última Bienal de São Paulo um artista quis circular com um bloqueador de celular, e foi interditado, naturalmente... Ficou apenas o gesto artístico... Vacúolos de silêncio reivindicava Deleuze com grande pertinência há alguns anos. É verdade que fui aprendendo a me proteger da saturação sonora com “cadeados” diversos, cera no ouvido, Ipod, autismo, cisão, modalidades de ausência ofensiva. Mas nada disso me apazigua, pois deixa tudo intacto para essa escalada tecnológica cuja lógica é eminentemente econômica,política e subjetiva.Daí a importância da leitura de um estudo como esse, que mostra como o tema do território sonoro, do monitoramento sonoro em espaço aberto, nas condições de uma sociedade descontrole, equivale a uma anexação do espaço público por máquinas de emissão sonora e visual, com suas consequências ainda imponderáveis. Daí também minha simpatia por algumas noções ousadas e engenhosas que Giuliano Obici traz neste livro, tais como o Pámphónos , a meu ver mais operativo hoje do que um suposto Panóptico. Mas o autor teve o cuidado de evitar a armadilha paranoica, a diabolização generalizada, regressiva ou saudosista, enxergando linhas de fuga por toda parte, focos de existencialização sonora plurais, de modo que qualquer demonização da tecnologia não dá conta da complexidade do campo sonoro hoje em dia. Apesar da indignação pessoal, sei que é preciso mais sutileza, cuidado, atenção para ler as linhas de força que atravessam esse campo. Eu resumiria esse trabalho com a fórmula da página 92: “O que pode um som? Quais capacidades de agir ele ativa? Quais suas potências? Suas alegrias e tristezas?” Assim, o mundo sonoro das grandes metrópoles (que Lívio Tragtenberg teve a felicidade de chamar de Neurópolis, em seu belo trabalho que escova tudo isso a contrapelo) passa a ser pensado à maneira de Deleuze-Guattari, como uma verdadeira “ópera maquínica”... E o principal, a escuta acaba sendo concebida como dramatização das forças de que o som é portador. Vejo aí, nesse conjunto de questões, e nos paradoxos aí presentes, e nessa opção de politizar a escuta sem diabolizar a tecnologia, um eixo muito agudo e fecundo, com muitas pérolas pontuais... Uma sobriedade com o ruído para “não espantar os devires sonoros”, a seletividade necessária para preservar a possibilidade de continuar sendo afetado pelos sons etc... Em todo caso, há uma cláusula difícil de sustentar, mas que atravessa esse estudo como um todo, qual seja, a de encontrar um lugar de análise “sem fatalismo nem deslumbramento”, tentando captar qual a “biopotência da escuta”, “como criar corpos-orelhas-maquínicas que possam restituir nossa sensibilidade auditiva, tirando-nos do estado anestésico e de entorpecimento ao qual nossos ouvidos estão submetidos”. Politizar a escuta sem torná-la paranoica, sem moralizar ou diabolizar os sons da cidade, das máquinas, dos equipamentos eletrônicos e da mídia, mesmo quando se detecta a militarização da dimensão sensível do audível. Em suma, o leitor tem em mãos uma cartografia rica e bem-sucedida do tema em questão, propondo até uma clínica da escuta, no sentido mais amplo da expressão. É um programa sugestivo, que também poderia ser formulado, na esteira de Guattari,como uma ecologia da escuta. Se a escuta é um problema político, biopolítico, ecológico, clínico, a edição deste livro se justifica plenamente, tanto para aqueles que se preocupam com os rumos da pervasividade capitalística como para aqueles que, em meio ao fervilhamento contemporâneo, perscrutam e experimentam, no campo artístico e social, novos meios de expressão e agenciamentos sonoros inesperados.
Peter Pál Pelbart
Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/32338852/6/Fenomenologia-do-som

Nenhum comentário:

Postar um comentário